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Comportamento · Cultura geek

Por que evento geek vira refúgio: a festa de fãs com cosplay, K-pop e a sensação de estar entre os seus

Cosplay, dança, J-pop e K-pop tocando alto: os eventos geek no Brasil cresceram virando ponto de encontro afetivo de quem quer estar entre iguais. O fenômeno tem números e estudos por trás.

Publicado em 22 de junho de 2026 · 7 fontes verificadas
Verificado pela equipe BRAZIL POSTING Como fazemos →
Por que evento geek vira refúgio: a festa de fãs com cosplay, K-pop e a sensação de estar entre os seus
Imagem: Reprodução / CNN Brasil

A cena tem um jeito reconhecível: pessoas de roupa colorida, mochila pesada, fone pendurado, sorrindo num pátio iluminado enquanto alguém puxa uma coreografia. Pra quem passa de fora pode parecer só uma festinha temática, mas pra quem está dentro é praticamente uma cidade paralela onde todo mundo, finalmente, entende a referência.

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Um lugar onde a referência não precisa ser explicada

São Paulo recebe o Anime Friends 2025 com atrações de K-pop e cosplay
Imagem: CNN Brasil · Imagem: CNN Brasil

Quem nunca foi a um encontro de fãs de anime, K-pop ou cultura pop costuma reduzir o assunto a fantasia e bandinha japonesa. Quem foi sabe que o forte do rolê não está no palco principal, e sim nos corredores e pátios laterais, onde grupos se juntam pra cantar abertura de série, gravar coreografia coletiva e trocar adesivo de personagem como se fosse figurinha de Copa.

A cultura pop asiática virou um dos maiores motores desses encontros no Brasil. O Anime Friends 2025, realizado no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, juntou shows de J-pop, K-pop, dublagem, concursos de cosplay e áreas de games num mesmo espaço, segundo a CNN Brasil. A reportagem descreve o festival como ponto de encontro de fãs de todas as idades, com experiência imersiva no universo oriental.

Não é evento isolado. A Secretaria de Cultura de São Paulo informou que o Orgulho Nerd SP reuniu cerca de 28 mil pessoas em dois dias no Parque Ibirapuera, com desfile de cosplay, batalha em arena de games, painéis com quadrinistas e exibição de animes. Em paralelo, calendários especializados como o Sociedade Geek listam dezenas de convenções espalhadas pelo país ao longo do ano, do Super-Con no Recife ao Brasil FurFest em Santos.

Não é só festa: é identidade ensaiada em público

Orgulho Nerd SP reúne cerca de 28 mil pessoas em dois dias
Imagem: Secretaria de Cultura e Economia Criativa de SP · Imagem: Secretaria de Cultura e Economia Criativa de SP

A pesquisadora Tâmara Fernandes, em artigo publicado na revista Comunicação, Mídia e Consumo da ESPM, analisou esses encontros e mostrou que eles funcionam como espaço de "jogos identitários". Em outras palavras: o cosplay, a dança, o grito coletivo quando começa a música tema, tudo isso é performance pública de uma identidade que no dia a dia costuma ficar guardada. O artigo lembra que as convenções de animê brasileiras nasceram nos anos 1990, no embalo do boom de Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, e foram se sofisticando até virarem o festival multimídia de hoje.

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O blog Comando Geek descreve o mesmo movimento por outro ângulo: ser geek, no Brasil, passou a estar atrelado a "senso de comunidade e pertencimento". As convenções e os grupos online servem pra que quem cresceu se sentindo deslocado por gostar de coisas "de nicho" encontre, de uma vez, centenas ou milhares de pessoas que falam a mesma língua, citam os mesmos episódios e choram nas mesmas cenas.

A dança coletiva e a coreografia que ninguém combinou

Cultura pop e performance: jogos identitários nos eventos de animê
Imagem: Revista Comunicação, Mídia e Consumo (ESPM) · Imagem: Revista Comunicação, Mídia e Consumo (ESPM)

Um fenômeno típico desses eventos é o Random Play Dance, formato importado do fandom de K-pop em que o DJ toca trechos curtos de músicas e quem souber a coreografia simplesmente entra no círculo e dança. O Calendário Nerd lista edições recorrentes em casas e clubes. A Fundação Japão em São Paulo chegou a organizar o 1º Concurso de Anime Song Dance no Brasil, formalizando algo que os fãs já faziam por conta nas filas dos eventos.

A leitura cultural é direta. Onde tem corredor, música alta e gente fantasiada, alguém vai começar a coreografia e o restante vai entrando. É menos sobre técnica e mais sobre o gesto de pertencer. A reportagem do site 4 Cosplay descreve a cena do Anime Friends nesses termos: cosplayers que cantam, dançam e participam de brincadeiras coletivas o tempo todo, sem palco fixo.

O "mundinho" não é desdém, é elogio

Os Maiores Eventos Nerds do Brasil em 2025
Imagem: Sociedade Geek · Imagem: Sociedade Geek

A expressão "mundinho" que circula em torno desses encontros costuma vir com tom irônico de quem está de fora, mas funciona melhor como descrição literal. É um mundo pequeno, sim, no sentido de ter regras próprias, código de comportamento, vocabulário e estética. E é justamente esse recorte que faz o pessoal voltar todo ano. Pesquisa publicada em PDF acadêmico sobre a experiência feminina em eventos geek destaca que, apesar de tensões antigas com machismo na comunidade, o número de mulheres frequentando convenções no Brasil tem crescido, em parte porque o ambiente passou a ser percebido como mais acolhedor que outras saídas noturnas.

No fim, a foto do pátio cheio resume bem: gente de mochila, gente de capa, gente de fone, gente rindo na fila. Ninguém ali precisa justificar pra que veio. E é mais ou menos isso que faz uma festa virar refúgio.

Fontes

Post original

Esta matéria nasceu deste post do @brazilposting:

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