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Buzz · BYD Camaçari

Discussão de chinês com baiano em obra da BYD em Camaçari não é 'choque de cultura': é peça de um canteiro com 220 resgatados da escravidão

Cena de operário chinês pegando pedaço de madeira durante bate-boca com colega baiano se encaixa num cenário já documentado por MPT, Polícia Federal e Agência Pública: agressões, jornadas de 12h e trabalho análogo à escravidão.

Publicado em 24 de maio de 2026 · 6 fontes verificadas
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Discussão de chinês com baiano em obra da BYD em Camaçari não é 'choque de cultura': é peça de um canteiro com 220 resgatados da escravidão
Imagem: Reprodução / Agência Pública

Vários capacetes ao redor, cadeiras de plástico empilhadas, contêineres ao fundo e dois homens cara a cara: um operário chinês com algo na mão, um trabalhador baiano sem proteção na cabeça. O vídeo curto saiu do canteiro de obras da fábrica da BYD em Camaçari (BA) embalado como piada de 'choque de cultura', mas a cena se encaixa num roteiro que o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal e a imprensa brasileira já vinham descrevendo há mais de um ano.

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O canteiro onde a cena foi gravada

Denúncia: operários chineses estariam sofrendo agressões em fábrica da BYD na Bahia
Imagem: Agência Pública · Imagem: Agência Pública

A fábrica que aparece ao fundo é a primeira unidade da montadora chinesa BYD no Brasil, erguida no antigo terreno da Ford, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. O investimento anunciado é de R$ 5,5 bilhões, e a obra começou em março de 2024 com três empreiteiras chinesas tocando as etapas pesadas: Jinjiang Group na terraplanagem, Open Steel e AE Corp na estrutura metálica.

Desde os primeiros meses de obra, a Agência Pública recebeu denúncias de agressões físicas, alojamentos imundos, banheiros sem manutenção, jornadas de 12 horas de domingo a domingo e trabalhadores bebendo água parada de poça. A maioria das vítimas relatadas naquele momento eram os próprios operários chineses, espancados por mestres de obra também chineses quando demoravam a cumprir uma ordem ou erravam alguma tarefa.

O vídeo da pancadaria que a fiscalização tinha em mãos

Chinês suspeito de agredir funcionários na BYD vai perder visto e voltar para país
Imagem: Jornal Correio · Imagem: Jornal Correio

Não é o primeiro flagrante de violência no canteiro. Reportagem da BBC News Brasil republicada pelo jornal O Povo revela que, onze dias antes da primeira inspeção oficial, em novembro de 2024, procuradores do trabalho da Bahia já tinham recebido um vídeo em que um chefe chinês espancava colegas dentro da obra. A Apública também descreveu, em outubro daquele ano, imagens de um chinês caído no chão depois de levar um chute pelas costas durante uma jornada normal de trabalho.

No começo de dezembro de 2024, o Jornal Correio confirmou que pelo menos um dos demitidos por suspeita de agredir colegas no canteiro era cidadão chinês, teria o visto cassado e voltaria para a China. A BYD afirmou na época que não toleraria desrespeito à dignidade humana e que cobraria providências da empreiteira contratada.

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163 chineses resgatados, R$ 40 milhões de acordo e lista suja

Operação resgata 163 operários chineses da escravidão em obras da BYD na BA
Imagem: Repórter Brasil · Imagem: Repórter Brasil

No dia 23 de dezembro de 2024, uma força-tarefa do MPT, Auditoria-Fiscal do Trabalho e Polícia Federal resgatou 163 operários chineses em situação análoga à escravidão dentro do canteiro da BYD, conforme registrou a Repórter Brasil. Eles tinham os passaportes retidos pelo empregador, recebiam só 40% do salário em moeda local e moravam em alojamentos sem condições mínimas. Ao todo, 220 trabalhadores chineses foram contratados em condições semelhantes pelas três empreiteiras.

A BYD rompeu publicamente com a Jinjiang, mas em maio de 2025 o MPT entrou com ação cobrando R$ 257 milhões em indenizações por danos morais coletivos. No fim do ano passado, montadora e empreiteiras fecharam acordo de R$ 40 milhões para indenizar os trabalhadores resgatados. Em abril de 2026, o Ministério do Trabalho incluiu a BYD na chamada 'lista suja' do trabalho escravo, ao lado do cantor Amado Batista.

Por que a leitura de 'choque de cultura' falha

Os bastidores da operação de resgate que levou a BYD à lista suja do trabalho escravo
Imagem: BBC News Brasil / O Povo · Imagem: BBC News Brasil / O Povo

A cena do pedaço de madeira na mão durante um bate-boca com colega baiano viraliza com legenda de comédia, como se fosse um mal-entendido pitoresco entre línguas. O problema é que esse comportamento não aparece num vácuo: ele é descrito repetidamente, por procuradores, auditores e sindicalistas, como parte da forma como o canteiro funcionou desde o começo. Os baianos, segundo o sindicato local SINDTICCC, cumprem jornadas menores e melhores condições, mas convivem todos os dias com a tensão estabelecida pela cadeia de mando importada da China.

O próprio Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Camaçari confirma estar acompanhando as investigações do MPT, e a Lupa já desmentiu narrativas paralelas que tentaram inflar o caso para 'invasão chinesa'. O que existe no canteiro não é folclore de migração: é uma disputa trabalhista concreta, com processo, autuação, lista suja e acordo milionário em curso.

Fontes

Post original

Esta matéria nasceu deste post do @brazilposting:

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